sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Uma lembrança amarga

  Até hoje me choca a lembrança de uma cena que vi certa vez, dentro deum shopping, em São Paulo. Estávamos eu e meu pai siando de uma loja quando vi, na porta do cinema, um garotinho de uns seis anos, no máximo, levando a maior surra da mãe, que além de bater no menino, xingava ele com os palavrões mais feios que eu já ouvi.
  Minha primeira reação foi chorar, chorar de dó do menino e de raiva daquela mãe. Depios, minha vontade foi correr até lá e dizer poucas e boas praquela mulher. Onde já se viu, bater daquele jeito numa criança, ainda mais assim, no meio de um shopping? O que de tão grave uma pessoinha tão pequena podia ter feito pra merecer apanhar daquela maneira? Como ainda tenho meus insignificantes quatorze anos, não ia poder deter aquela brutamontes sozinha. Cutuquei meu pai e pedi que ele fizesse alguma coisa, ligasse pra polícia, ou até batesse na mulher também. Mas ele não fez nada. Nem ele nem ninguém que estava olhando, com olhos assustados, o garotinho chorar.
  As pessoas se dizem tão corretas e contra a violência, mas na hora de agir e protestar conta ela, se acovardam. Uma criança ou um adolescente não tem meios para fazer uma denúncia assim, sozinho. E o que fazer se os adultos, que poderiam apoiá-la, simplesmente olham um absurdo desses acontecer bem na sua frente, mas não fazem absolutamente nada pra ajudá-la ou denunciar quem a maltrata? Somos justamente nós, que temos nossos direitos garantidos, que devemos protestar e denunciar esses abusos, para que se façam cumprir os direitos das crianças e dos adolescentes do nosso país. E o que mais me entristece é saber que esse tipo de coisa pela qual aquele menininho passou não acontece só em São Paulo. Acontece no Brasil inteiro, aliás, no mundo inteiro, e às vezes dentro de nossas próprias casas ou nas casas dos nossos vizinhos.
  Saímos do shopping, eu e meu pai, sem falar nada um com o outro. Ninguém fez nada pra ajudar aquele menino mirradinho a parar de sofrer. Tenho nítido na minha memória o olhar que aquele garotinho me lançou, com a face cheia de lágrimas, e lancei pra ele um olhar de desculpas, por não poder fazer nada. Ele baixou os olhos inchados para as mãos magrelinhas e as enfiou nos bolsos de seu short rasgado, e eu o acompanhei com o olhar até sairmos de lá.
  Não sei como aquele menino está agora, se ainda apanha, ou se continua magrinho, mas sei dentro de mim que um dia ainda vou ajudar um monte de crianças como ele a terem os seus direitos garantidos.

3 comentários:

  1. Sempre tão importante a gente se colocar na pessoa do outro, a gente ter consciência de que podemos fazer algo... a dor de uma criança é algo diante do que não podemos ficar impassíveis. Linda reflexão!

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  2. Quero mais textos. Mais textos lindos como esses...

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